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Aproveitando o início de mais um ano letivo para essa reflexão.
Há pouco tempo, imaginar um mundo em que você falasse em português, mas o som da sua voz saísse em inglês, em tempo real, sem erros e com entonação natural, era coisa de filme futurístico, distante, quase impossível. Hoje este mundo já é realidade. A Inteligência artificial e as tecnologias de tradução automática estão transformando a maneira como nos comunicamos. Aplicativos de celular, fones de ouvido tecnológicos e assistentes virtuais prometem romper a barreira do idioma com apenas um clique.
Diante disso, é inevitável perguntarmos: será que aprender inglês ainda faz sentido? E pra que investir em programas de educação bilíngue? A resposta, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, é que, sim, devemos aprender inglês e focar na educação bilíngue, mas por motivos diferentes dos que tradicionalmente usamos para justificar tais necessidades. Cada vez mais, precisamos entender que o que está em jogo não é apenas a língua, mas a forma como educamos para um mundo em transformação.
Durante décadas, a promessa do inglês era de acesso às melhores universidades, aos empregos mais bem pagos, às viagens internacionais. Ser fluente era um diferencial, uma vitrine de status e preparo. Hoje, essas razões permanecem em parte, mas começam a perder peso quando o estudante percebe que pode “se virar” com um aplicativo. Por isso, precisamos urgentemente ressignificar o papel do inglês na escola.
Afinal, aprender uma língua é, antes de tudo, aprender a se relacionar com o outro. Aprender inglês é uma forma de abrir a porta para outras culturas, ampliar horizontes, desenvolver empatia. E é também uma oportunidade de desenvolver competências essenciais no século XXI, como pensamento crítico, comunicação eficaz e competência intercultural.
O conceito de competência comunicativa intercultural, defendido por estudiosos como Byram e Wagner (2018), propõe exatamente isso: ensinar inglês não apenas para que o aluno fale corretamente, mas para que saiba dialogar com pessoas de diferentes culturas de forma respeitosa, crítica e empática. Isso significa ir além do “verb to be”. Significa preparar estudantes para navegar em situações reais, lidar com mal-entendidos culturais, interpretar comportamentos e adaptar sua comunicação ao contexto.
Mas essa mudança não é apenas teórica. Ela já está ocorrendo na forma como as famílias brasileiras escolhem as escolas dos filhos. O modelo das escolas de idiomas tradicionais, com aulas avulsas e foco em fluência, vem dando lugar ao crescimento acelerado de escolas e programas bilíngues dentro de escolas regulares. Segundo dados da Associação Brasileira do Ensino Bilíngue (ABEBI), o número de escolas bilíngues no Brasil cresceu mais de 250% entre 2015 e 2023. A tendência está longe de ser uma moda passageira.
Essa transformação tem razões claras. As famílias buscam soluções educacionais mais completas, com mais integração entre os conteúdos escolares e o inglês, e que preparem os filhos para um mundo globalizado. A percepção é que a exposição diária ao idioma, dentro de um contexto escolar significativo, promove um aprendizado mais eficaz e duradouro. Além disso, muitas famílias querem que os estudantes tenham acesso a universidades internacionais, possam participar de intercâmbios ou simplesmente se sintam confiantes ao se comunicar em qualquer situação.
Mas é importante destacar: a escola bilíngue não deve ser o ponto final dessa evolução. Ela é um passo intermediário. O próximo estágio é o que podemos chamar de escola intercultural. Trata-se de um modelo que vai além da língua. A proposta é formar estudantes que compreendam e valorizem a diversidade, que sejam capazes de questionar narrativas dominantes, que entendam o papel da cultura na forma como aprendemos e ensinamos. Em uma escola intercultural, aprender inglês não é apenas entender um texto ou ouvir uma música. É refletir sobre o que está por trás daquela mensagem, quem a produziu, qual contexto ela representa, quem está sendo ouvido e quem não está.
Essa visão está alinhada com a noção de “competência global” promovida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que passou a ser avaliada no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o PISA, desde 2018. Segundo a organização, preparar jovens para um mundo sustentável e inclusivo envolve a capacidade de examinar questões locais e globais, apreciar perspectivas diversas, comunicar-se de forma eficaz com diferentes culturas e agir em prol do bem comum. O inglês pode ser o meio para isso.
Por isso, professores de inglês também precisam de apoio para ressignificar seu papel. Não são mais apenas transmissores de conteúdo linguístico. São mentores interculturais, facilitadores de experiências globais, mediadores de sentido. Precisam estar preparados para promover discussões culturais, desafiar estereótipos, propor projetos colaborativos e integrar o inglês às grandes questões do nosso tempo. Para isso, formação continuada, materiais atualizados e visão pedagógica são fundamentais.
E quanto à Inteligência Artificial? Sim, ela veio para ficar. Mas, longe de tornar o professor obsoleto, ela destaca ainda mais o que só o humano pode oferecer: julgamento, empatia e adaptação ao contexto. A IA pode traduzir uma frase, mas não pode sentir o desconforto de um estudante, nem mediar um conflito cultural em sala. O bom professor continua sendo essencial. E com o suporte da tecnologia, pode inclusive ganhar mais tempo para se dedicar ao que realmente importa: as pessoas.
Em um cenário de tantas transformações, o inglês continua sendo importante, mas importa de outro jeito. Importa como ponte entre culturas, como ferramenta de formação cidadã, como linguagem comum para lidar com os desafios globais. Não se trata de abandonar o ensino do inglês. Trata-se de torná-lo mais significativo, mais conectado ao mundo real, mais humano.
Para as escolas, isso representa uma oportunidade e um dever. A oportunidade de se posicionar como agentes de formação global. E o dever de garantir que o inglês ensinado em suas salas de aula não seja apenas um conjunto de regras, mas uma janela para o mundo. O inglês do futuro é aquele que nos ajuda a compreender o outro, a construir pontes e a agir com consciência. E esse inglês, definitivamente, ainda importa.